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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Morre Cesaria Évora - “A Diva dos Pés Descalços”


Por Roberto Mariz 

A lendária cantora cabo-verdiana Cesaria Évora morreu neste sábado (17) em um hospital de Cabo Verde. Ela, que tinha 70 anos, fama internacional e estreita colaboração com músicos brasileiros, já havia abandonado definitivamente os palcos

há três meses por problemas de saúde. Évora sofria há vários anos de diversos problemas e chegou a ser submetida a sérias operações, incluindo uma cirurgia cardíaca em maio de 2010.
"Não tenho forças, não tenho energia. Gostaria que dissessem aos meus admiradores:
sinto muito, mas agora preciso descansar. Lamento infinitamente ter que me ausentar
devido à doença, gostaria de dar ainda mais prazer aos que me seguiram durante tanto tempo", declarou ao jornal francês Le Monde ao anunciar o fim de sua carreira, em 23 de outubro.
A artista, cujo reconhecimento, embora tardio, nunca parou de crescer, recebeu em 2009 a insígnia da Ordem da Legião de Honra da França depois de mais de 45 anos de carreira musical, incluindo seus 14 álbuns. Após se retirar dos palcos, Évora comemorou com simplicidade seus 70 anos no dia 27 de agosto.


O corpo de Cesária Évora vai permanecer em câmara fria até às 7:00 horas de terça-feira, e depois será transladado para a residência da família, na Rua Fernando Ferreira Fortes, onde permanecerá até às 12:00 horas (13:00 em Lisboa).
A cantora cabo-verdiana é lembrada como a diva que levou a música de Cabo Verde para o mundo.
“Cabo Verde fica mais pobre, da mesma forma que ficou mais rico quando ela nasceu,porque nasceu uma estrela que não se apagará, ficará sempre acesa, a brilhar através da sua música”, afirmou o músico cabo-verdiano Tito Paris.
Tito Paris, artista cabo-verdiano, lamentou ainda que “muitos [cabo-verdianos] não têm noção do que ela ofereceu” àquele país. “A Cesária levou-nos de uma parte do mundo para a outra, levou o nome de Cabo Verde por todo o mundo e quando ela estava em
palco, todo o cabo-verdiano estava lá com ela. Ela levou a morna, e o sorriso, e o calor do Mindelo”.

A cantora, que nasceu em 1941, começou muito jovem a cantar em bares e hotéis, mas só em 1988, com 47 anos, gravou, em Paris, o aclamado álbum “La diva aux pied nus” – “a diva dos pés descalços ”, epíteto com que é frequentemente referida na imprensa.
Poucos anos antes, gravara já um álbum em Lisboa, mas o trabalho acabou por passar despercebido. Numa entrevista ao PÚBLICO, em 1999, Cesária mostrava algum ressentimento por isso. "[Portugal é] um grande país, tenho muitos fãs aqui, mas eu devia ter sido reconhecida aqui primeiro. Eu até ia cantar nos navios de guerra, desde o tempo colonial", disse. "Quem me ajudou foram os franceses, nem os portugueses, nem os cabo-verdianos".
Nos anos que se seguiram a “La diva aux pied nus”, Cesária Évora tornou-se numa estrela no panorama mundial da world music. Em 2009, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, atribuiu-lhe a medalha da Legião de Honra.
Foi “uma das vozes mais expressivas e originais da música mundial”, classificou esta tarde o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, numa nota de
condolências. “A qualidade da sua voz era de alcance universal, e o reconhecimento internacional que obteve comprovou isso mesmo”. Um comunicado do Presidente da República, Cavaco Silva, descreve-a como uma “artista singular, que tão bem soube exprimir a cultura e a tradição musical da sua terra, muito para além das fronteiras da língua portuguesa".
O ministro da Cultura de Cabo Verde, Mário Lúcio Sousa, considera que "Cabo Verde perdeu uma das suas principais vozes". E acrescentou: "O legado que nos deixou certamente que suplantará a dor. A Cesária tinha uma alma que nos representava a todos. Era uma espécie de anjo da guarda de toda a gente". O Governo de Cabo Verde decretou dois dias de luto oficial.
A Assembleia Nacional cabo-verdiana também já expressou as condolências: “A diva dos pés nus morreu, mergulhando o país numa profunda dor, pois a perda é irreparável. Cabo Verde fica mais pobre com o desaparecimento físico da Cize, como ela era carinhosamente conhecida pelos cabo-verdianos”, afirmou o presidente da assembleia, Basílio Mosso Ramos, citado pelos media locais.
Cesária Évora morreu às 11h20, no Hospital Baptista de Sousa, na ilha de São Vicente, na sequência de complicações cardíaco-respiratórias. Em 2008, sofrera um acidente vascular-cerebral (AVC), que a afastou temporariamente dos palcos. Regressou pouco depois, com um ritmo menor de concertos. "Canto mais um tempo e depois stop!",